O Brasil vive uma crise silenciosa e alarmante: o desaparecimento dos jumentos. Em pouco mais de duas décadas, o país perdeu 94% da sua população desses animais. Dados recentes apontam que, em 1999, o rebanho era estimado em 1,3 milhão de jumentos. Em 2025, restam apenas cerca de 78 mil.
Boa parte dessa drástica redução está ligada à intensa demanda internacional, especialmente da China, por produtos derivados da pele dos jumentos, como o ejiao, uma substância utilizada na medicina tradicional e em cosméticos. Desde 2018, cerca de 248 mil animais foram abatidos legalmente no Brasil, com a Bahia sendo o principal estado de atuação dos frigoríficos.
A situação acendeu o alerta de pesquisadores e ambientalistas: a espécie já estaria abaixo do limite considerado seguro para a manutenção de uma população viável. Caso o abate continue nesse ritmo, o jumento nordestino — símbolo cultural e patrimônio do semiárido — poderá desaparecer completamente do território brasileiro nos próximos anos.
Iniciativas de proteção
Diante da ameaça, projetos de lei tramitam no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa da Bahia com o objetivo de proibir o abate de jumentos. As propostas já foram aprovadas nas Comissões de Constituição e Justiça e aguardam votação em plenário.
Além disso, a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) realiza entre os dias 26 e 28 de junho o 3º Workshop Internacional “Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável”. O evento reúne pesquisadores, organizações não governamentais e representantes de movimentos sociais para discutir estratégias de preservação, bem-estar animal e alternativas sustentáveis à produção de colágeno.
Alternativas sustentáveis
Uma das soluções em debate é o uso do colágeno cultivado em laboratório, desenvolvido a partir da bioengenharia. Essa tecnologia já se mostra promissora para substituir o ejiao sem necessidade de abate animal e pode representar uma revolução no mercado de insumos farmacêuticos e cosméticos.
Um símbolo em risco
Mais do que números, o desaparecimento dos jumentos representa o apagamento de uma parte importante da história do Brasil. Esses animais foram fundamentais no transporte de água, alimentos e ferramentas nas regiões mais áridas do país. Ainda hoje, são utilizados por milhares de pequenos produtores rurais como aliados na agricultura de subsistência.
A preservação dos jumentos é, portanto, uma questão que vai além do meio ambiente. É também uma luta pela valorização cultural, pela memória das comunidades do semiárido e pela justiça social.
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