Na noite desta terça-feira, 24 de março, o auditório do Campus Multi-Institucional Humberto Teixeira, em Iguatu, foi palco de um dos debates sociais mais importantes dos últimos tempos. Promovido pela Diocese de Iguatu, o Fórum Fraternidade e Moradia reuniu representantes da Igreja, poder público, técnicos, lideranças comunitárias e moradores de ocupações para discutir a realidade da falta de moradia digna no município.
O encontro contou com a presença do bispo diocesano Dom Geraldo, dos padres Emanuel e Anastácio, da secretária de Assistência Social, Louzanira, além de equipes técnicas do CRAS, CREAS, profissionais da saúde e representantes das comunidades afetadas.
Durante o fórum, um amplo diagnóstico foi apresentado, revelando um cenário preocupante: atualmente, cerca de 510 pessoas vivem em ocupações urbanas em Iguatu, distribuídas em áreas como Altiplano, Areias II, Areias, João Paulo II, Filadélfia e Vila Moura. Em alguns desses locais, famílias vivem há mais de uma década em condições precárias, sem acesso a saneamento básico, banheiros ou infraestrutura mínima.
Os dados também mostraram a complexidade social envolvida. O município acompanha pelo menos 51 pessoas em situação de rua, sendo que a maioria não possui local fixo para dormir. Parte dessa população depende de ações assistenciais para se alimentar, enquanto outros sobrevivem de trabalhos informais.
A área da saúde também trouxe um retrato importante. Por meio do programa Consultório na Rua, iniciado recentemente, já foram realizados atendimentos, exames, encaminhamentos e até casos de recuperação de dependência química, evidenciando a necessidade de atuação integrada entre saúde e assistência social.
Do ponto de vista técnico, um dos principais entraves apontados é a legislação vigente. O Plano Diretor do município limita a regularização fundiária em áreas públicas a até 50% de ocupação, o que impede a legalização da maioria das ocupações existentes. Apesar disso, áreas como Alto Plano e Vila Moura foram apontadas como mais viáveis para avançar nesse processo.
Durante o debate, moradores e lideranças comunitárias fizeram denúncias contundentes. Relataram a ausência de infraestrutura básica, criticaram a distância de conjuntos habitacionais já construídos e questionaram a falta de conhecimento do poder público sobre a realidade das ocupações. Também foram levantadas críticas sobre o uso seletivo da legislação ambiental e a existência de terrenos públicos abandonados que poderiam ser destinados à habitação.
Propostas também surgiram. Entre elas, a destinação de parte dos terrenos públicos para programas habitacionais e a utilização de áreas ociosas para moradia e geração de renda, como a agricultura urbana.
Apesar das dificuldades apresentadas, o encontro foi marcado por um ponto em comum: a necessidade de união. Igreja, poder público, sociedade civil e comunidades demonstraram disposição para dialogar e buscar soluções concretas para um problema que afeta diretamente centenas de famílias em Iguatu.
O Fórum Fraternidade e Moradia deixou claro que a questão da habitação vai além da construção de casas. Trata-se de garantir dignidade, inclusão social e condições básicas de vida para quem mais precisa.
Comentários: